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Bibliotecas

  • Foto do escritor: Bernardo Caprara
    Bernardo Caprara
  • há 1 hora
  • 2 min de leitura

Diz o poeta-professor-historiador Luiz Antonio Simas que, no Rio de Janeiro, o profano é sacralizado e o sagrado é profanado. Ele também diz que as ruas são verdadeiras bibliotecas, e eu penso que parte da Sociologia latino-americana e brasileira sabe que entender as relações sociais não pode ser um exercício distante delas. Nossas veias abertas riscam calçadas, morros, avenidas, botecos vagabundos e praias. Ao se envolver com atenção, não resta conhecimento que faça sentido se não passar pelo corpo do seu povo.


No fundo dos nossos quintais, nas rodas de samba, areias lotadas, terreiros ou comunidades, no funk onipresente, essa encruza de diferentes modos de existir agoniza, mas jamais morre. Para ser de aço em anos de chumbo, a liberdade pulsa como as jogadas de Afonsinho na década de 1970. Hoje, o galo já não canta mais no Cantagalo, e a água não corre mais na Cachoeirinha. Ainda assim, o poder da criação busca improvisar escassez em vida. Insiste em tirar a poeira dos porões, abrindo alas para os heróis dos barracões, para malandros batuqueiros, honrando Marias e Marielles.


Porém, tirar o sorriso do caminho às vezes se faz necessário, dadas nossas profundas contradições. No tempero que deixa bolado, misturando mel com dendê, o horror dos tumbeiros se atualiza na brutal violência das forças de repressão do Estado, emaranhada com distintas opressões paralelas. O samba canta Catatau, que caiu com a mão na cabeça, para que ninguém esqueça, o quanto pediu clemência. Que não seja em vão a luta das mães e da juventude negra, e a labuta da classe trabalhadora, enfrentando o desencanto e a precariedade.


Nessa sociedade rasgada por conflitos e desigualdades, o samba é poderosa entidade das falanges da rua. E eu, com meu sorriso aberto, devoto de Jovelina Pérola Negra e Dona Ivone Lara, sigo no miudinho, praticando uma artesania que ousa gostar das ruas, pedalar por aí, peitar a bola para o alto e cantar ao som de cavacos e tantãs. Querendo viver o mundo para, quem sabe, entendê-lo. Sem perder a capacidade de se indignar e de se encantar. É que o samba pega que nem feitiço, e de tão habituada com o adverso, a vida vai em frente.

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