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Fogo!

  • Foto do escritor: Bernardo Caprara
    Bernardo Caprara
  • há 20 horas
  • 2 min de leitura

Nas brasilidades que fazem as profundezas desse país, vivem histórias que revelam simbolismos e escondem devaneios oníricos. Dizem que aconteceu com alguém que andava em uma mata fechada, resistindo aos ditames do carrego colonial. A mata respirava devagar naquela noite, como se fosse um bicho experiente escondido entre as árvores. Caminhava sem saber havia quanto tempo, lidando com os galhos úmidos e o barro escuro, até encontrar uma abertura no meio da floresta.


No fim estreito da trilha, um homem meditava sentado de pernas cruzadas, pegando fogo. O incêndio percorria seu corpo sem consumi-lo. Ardiam-lhe os ombros, os cabelos, as mãos pousadas sobre os joelhos. Daquela combustão intensa vinha a única luz da noite dominada pelo breu. O calor queimava o ar, mas não feria. Depois, a floresta se desfazia na praia, antecedida por um largo espaço de exploração feito de areia. Passava pelo homem incandescente com o cuidado de quem atravessa um espanto, chegando à beira da praia em sua densa inquietante escuridão.


Contam poetas, desviantes e entidades que na entrada da praia havia apenas um pé do homem em chamas, imóvel, virado para dentro, apontando para o lugar onde ele permanecia sentado. Não havia corpo algum ligado àquele pé. Mas a direção que ele apontava era clara. Ardendo em silêncio, sustentando sua profunda meditação, o homem continuava ancorando um ponto de luz diante da praia, quase cega de tão escura. O mar não brilhava, o céu não tinha lua ou estrelas, e a água parecia feita da mesma matéria da noite.


Andava pela areia ouvindo apenas o barulho das ondas e dos sentimentos e das ambivalências peito a dentro. Quanto mais avançava, mais sentia que a noite era mundo, nas suas angústias e medos, em si e nas gentes. Inventariando sentidos, voltava para perto do meditante. Ele continuava ali, oferecendo chamas à penumbra, com serenidade e firmeza. Parava atrás dele, queimando emoções ancestrais, evocando e repetindo "fogo! fogo! fogo!". Agia como quem sente, brada, transforma. A chave estava ali. Era sabido que o incêndio não trazia castigo; o fogo precisava arder para que a vida pudesse reviver.

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